As pequenas coisas que nos salvam

15-08-2017

Há muito tempo que não escrevo nada. Não por falta de inspiração, que não sou nenhuma blogger ou escritora que precise disso para produzir trabalho, mas por pura preguiça. Mas hoje, enquanto salteava uns espinafres com massa na Wok surgiu a ideia deste texto. Não, não vou partilhar nenhuma receita, não é disso que se trata, mas sim de como pequenos gestos tão corriqueiros e simples como este,  nos podem salvar. Vou elaborar, com a partilha da minha experiência. Neste momento estou a atravessar o que chamo de "travessia do deserto" na minha vida. Despedi-me de um trabalho que já não me realizava e no qual me sentia estagnada, para embarcar na aventura de voltar a estudar e dar uma volta à minha vida profissional. Não vou dizer carreira, que sempre me soou mal porque associo à camioneta que apanhava para ir visitar a minha avó à aldeia. Agora terminado o primeiro ano do mestrado, numa nova área da qual gosto muito, estou à espera de "meter as mãos na massa". Ou seja, de arranjar um estágio, de preferência num sítio onde possa aprender a prática com bons profissionais que tenham a generosidade e paciência de me ensinar. Espero e preciso de ganhar experiência profissional neste campo da psicologia, para que outras portas se abram. O caminho é claro, mas tenho de estabelecer pequenas metas até chegar onde quero. Ninguém começa uma casa pelo telhado. Neste compasso de espera tem-se passado algum tempo, bastante até. As semanas vão passando e quando dei por mim reparei que há mais de dois meses que já estou em casa. As chamadas "férias forçadas", e sabemos que tudo o que é forçado é terrível. Não há nada pior do que ouvir de quem já tem um emprego certo, um rumo profissional certo, um ordenado certo, uma vida "aparentemente" certa (ou o que a sociedade nos vende como tal) comentários como: "De que é que te queixas? Estar em casa sem fazer nada! Que maravilha, quem me dera!". Só alguém que não me conheça minimamente é que pode sugerir que isso é uma coisa boa para mim. Sou uma mente inquieta e essas se não tiverem objectivos para onde canalizar tanta energia mental, esmorecem. Comecei a sentir que isso estava a acontecer comigo. As duas primeiras semanas são sempre espectaculares mas à terceira já começamos a sentir um certo aborrecimento, à quarta que todo o mundo está a contribuir para uma sociedade melhor sendo produtivo e nós não e à quinta começam a chegar aqueles pensamentos invasivos, qual ocupa que não paga renda, de que se calhar não temos assim tanto valor como isso. Caso contrário não estaríamos no sofá às três da tarde a ver uma série em pleno dia útil. Começamos a sentirmo-nos efectivamente inúteis. Para quem como eu, neste momento não trabalha, o dinheiro não abunda e não me posso dar ao luxo de ir numa viagem de auto descoberta espiritual num resort de 5 estrelas na Tailândia. Então comecei a olhar para as pequenas coisas à minha volta aqui em casa. E a pensar em quais poderia investir esta minha tal mente inquieta. E a primeira que surgiu foi a culinária (das outras falarei num próximo post). Na senda de me tornar vegana, começei a pesquisar informação sobre o tema, comprei livros, descobri sites de receitas e comecei a experimentar. Autodidata, descobri e redescobri novos alimentos, novas técnicas e passei horas infindas de volta dos tachos a cozinhar. Desde uma quiche de tofu com legumes, passando por um bom caril de abóbora com grão e acabando em bolos e sobremesas. Surpreendentemente, as coisas estão a ser aperfeiçoadas e sem qualquer falsa modéstia, acho que até me tenho estado a sair bem. Pelo menos eu gosto e tenho sempre comidinha da boa em casa, para saborear com calma, enquanto o tempo vai passando lento, por agora. A cada dia, programo o que vou cozinhar, começo a arriscar e a fazer experiências. Umas saem bem, outras acabam no lixo, mas vou tentanto até acertar. E o mais importante de tudo é que descobri algo que me dá muito prazer fazer e acaba por preencher muitas destas horas de contagem decrescente até à proxima paragem da minha vida. Onde certamente não terei o mesmo tempo para me dedicar a esta nova paixão. Já tive até aquele momento de epifania, a pensar que tinha descoberto a minha vocação e que bom mesmo era ter um catering ou restaurante vegano, mas depressa passou, que ainda não perdi completamente o juízo nem o foco. E nesta travessia no deserto, que se encaminhava para o pior, foi no meio de tachos, wooks, frigiderias e formas de bolos que descobri algo que tem dado sentido a estes dias apararentemente sem sentido. Porque a mim, sempre me impigiram a ideia de que a nossa vida só tem sentido se trabalharmos das 9h às 17h, trouxermos um bom ordenado para casa no final do mês e ponto final. E quem sabe, talvez não seja bem assim...

Até Breve

Inês