Este país não é para causas

02-07-2017

Hoje li uma notícia acerca da aprovação de um novo diploma no parlamento. Reza o mesmo que os senhorios deixarão de poder proibir os seus inquilinos de terem animais de estimação nas casas que arrendaram. Bom, na teoria é bonito, dizem que é para evitar a discriminação de quem tem animais na hora de ter de arrendar, mas na prática acho que vai cair em saco roto. Tal como todas as outras mudanças na lei, que alegadamente protegem os animais, como a criminalização dos maus tratos aos mesmos e deixarem de ter o estatuto de "coisas" e passarem a ser reconhecidos como "seres sencientes". Parabéns, foi preciso chegaram a 2017 para realizarem que os animais sentem, espectacular, a sério!!! Eu costumo dizer que há pessoas de causas. O meu pai era uma delas. Ao observá-lo aprendi que vivemos num país onde "tipos que pensam" são chatos e incomodam. Pior ainda se se atreverem a dar a cara em público e defender aquilo em que acreditam. Mas também aprendi a admirá-lo muito pela sua combatividade. Sempre fui uma rapariga de pelo na venta, desbocada, rebelde sem causa e convenci-me que com a idade me iria acomodar às coisas que acho que estão erradas e encolher os ombros em sinal de resignação. Mas a maturidade revelou-se um "propulsor" ainda maior do meu pensamento crítico e indignação. Quanto mais velha fico, mais as coisas me inquietam, mais dificíl me é ficar indiferente. Voltando à questão das causas, acho que há sempre quem tenha uma, que por alguma razão lhe diz mais. Para alguns é a defesa dos direitos da criança, a má gestão do erário público, o estado lamentável da saúde, justiça ou educação e para outros "a verdade desportiva" no futebol. Tudo certo, respeito e compreendo. Não me venham é convencer que existem causas de primeira e causas de segunda, que isso eu já não compro, porque ninguém foi nomeado juíz das causas para lhes atribuir grau de importância. A minha causa é a defesa dos direitos dos animais. E porquê? Obviamente porque gosto muito dos mesmos e porque sempre os vi como os seres mais indefesos dentro dos indefesos, sobretudo porque não tem razão nem voz própria. Vivemos num país cuja influência das religiões na cultura se reflecte até aos dias de hoje, na forma como alguns animais são tratados, nomeadamente os cães que em livros sagrados são considerados "animais impuros". Daí a grande discrepância entre a forma como vemos os nossos bichos serem tratados e a forma como por exemplo os anglo-saxónicos tratam os animais. Em Portugal é perfeitamente aceite que o dono de um cão o mantenha acorrentado na rua, com fome, sede, frio ou calor. E se chamarem as autoridades garanto que pouco ou nada será feito. Quem é que até hoje foi condenado em Portugal por mal tratar um animal? Ah já sei, aquela senhora do gato em Trás-os-Montes, porque estava lá a imprensa de câmaras em riste quando puseram o bicho num pote e lhe largaram o fogo. Yeh right... No nosso país as pessoas que se dedicam a resgatar e a proteger animais mal tratados e abandonados fazem-no de forma estóica. Com uma resistência inacreditável à frustação. A frustação diária de querer cuidar daqueles que para a maioria são um mal menor, uma causa menor. Associações que vivem de doações e do trabalho dos voluntários. Sobrelotadas e sem qualquer apoio estatal. É para esta merda que eu pago uma fortuna de impostos??? Não, é para pagar bancos falidos, está certinho. Eu vou continuar a ser uma dessas pessoas que lutam contra moinhos de vento, pela defesa dos animais. Recuso-me a ser mais uma acomodada, de olhar vazio, enquanto faço o trajecto de metro para casa depois de um dia de trabalho, já só a pensar no que hei-de fazer para o jantar, se o marido já deu banho aos miúdos ou se me esqueci de pagar a conta da luz. Porque quero mais e quero melhor, e tenho quase a certeza que vou querer isto até morrer. Porque sou filha do meu pai, e sobretudo porque sei que não posso mudar o mundo, mas posso começar por melhorar a minha realidade.

Até Breve

Inês