Eu não nasci para ser princesa

22-06-2017

Chegam os meses de maio e junho e é abrir o Facebook e ver fotos de casamentos. Confesso que não estou muito a par desse nicho de mercado, mas tenho ideia que nas quintas onde realizam o copo de água (adoro o nome by the way) podemos falar de "época alta", em que o preço do bacalhau com broa e dos rojões de porco com amêijoa sai inflacionado "por cabeça". Quando vejo as fotos e por todos os casamentos a que já fui, aqueles em que os noivos compram o que eu chamo o pacote "whole nine yards" (google it), questiono-me sempre acerca do sentido da vida. Não, por acaso não, questino-me só porque é que estou ali a largar umas centenas de euros para morrer de tédio e de dores nos pés por conta dos saltos, que quem já foi a um casamento como deve ser, já sabe que há todo um ritual de pequenas peregrinações. Começa com o senta e levanta na igreja, ao croquete regado a Freixenet com um morango congelado lá dentro, enquanto os noivos tiram tanto fotos com os pais como com completos estranhos que nunca viram na vida, mas que estão ali naquele momento tão intimista de consagração do seu amor (tipo a namorado de uma semana do Zé Maria que nem conhece bem o próprio, mas caraças lá teve que vir para lixar o sistema das mesas). Segue-se o momento constrangedor em ficámos na mesa "Oceano Atlântico", porque o tema do casamento é o "Mar e os Oceanos", e não conhecemos ninguém, então tipo banquete de Estado vamos ter de estar ali a fazer conversa fiada porque parece mal uma pessoa levantar-se e ir atacar a mesa dos queijos, antes do creme de marisco, e do dito bacalhau seguido dos rojões serem servidos. E depois uma pessoa bebe, e bebe mas parece que nem assim o "Time of my Life" com que os noivos abrem a pista nos parece bem. E se tiverem a sensibilidade de uma saboneteira como eu, para estas coisas, também achamos um bocadinho lamechas a projecção de um vídeo com 3759 (eu já cheguei a contar porque estava aborrecida) fotos dos noivos. Desde que eram dois bebés rechonchudos, até à primeira viagem a Badajoz para comprar caramelos, as bonitas férias em Quarteira, ela às cavalitas dele ali para os lados do Terreiro do Paço etc, etc... E de quem é a culpa disto tudo perguntam voçês? Da Disney óbvio. E das mulheres vá. O casamento é claramente para a noiva. Nunca vi um noivo (nem na altura em que tive um...) propriamente exultante entre ter de escolher se o bolo era de chocolate com recheio de doce de leite ou de pão-de-ló com creme de baunilha. É o dia em que todos aqueles livros de capa dura e formato A4, que lemos em miúdas, emergem no nosso inconsciente e dizemos:"é este o dia em que eu vou ser a princesa". E é assim que nos vendem um vestido lindo, cheio de folhos e drapeados, com preços proibitivos que só vamos usar um dia. E é assim que queremos casar com aquele homem, a acreditar que ele é um príncipe e que pode não existir para as outras todas, mas para nós sim senhor, houve um "felizes para sempre". Em que na véspera somos a Gata Borralheira, com um pijama velho no sofá a comer uma tablete de Milka e no dia seguinte, Cinderela radiosa com uma tiara e um véu na cabeça. Aquele dia em que nos queremos sentir a Branca de Neve, resgatada de um sono letal só com um leve beijo do príncipe. Neste caso foi um homem que nos resgatou de uma vida de "encalhada", beza-o Deus, que ninguém quer contrair um crédito à habitação sem ter alguém ao nosso lado para partilhar uma linda vida de oscilações de TAEGs. Em que valeu mesmo a pena termos brincado aos médicos, perdão, às noivas com um lençol branco na cabeça, a fazer de conta que casávamos com o nosso vizinho Nélson (que hoje está a cumprir pena em Linhó). E nós mulheres compramos essas fantasias, compramos tudo sem regatear e infelizes daquelas que não tem o que nós temos, invejosas. E depois vem bebés lindos que nos enchem o smarphone de fotos e que são as riquezas de sua mãe e o melhor da vida, porque assim nos foi dito desde sempre. Eu infelizmente nunca comprei esse pacote para mais tarde utilizar. Lembro-me que adorava decorar lindas casas para uma Barbie que vivia sozinha e que era regularmente visitada pelo Ken, porque ela trabalhava muito e só estava em casa à noite. Que premia as teclas do telefone de brincar, como se teclas de um computador se tratassem, porque era uma secretária muito ocupada. Sendo psicóloga até podia agora fazer uma auto-análise mas não me apetece. A única conclusão a que efectivamente posso chegar é que eu não nasci para ser princesa!

Até Breve

Inês